ligados-a-tudo-desligados-de-nos

É quase impossível hoje entrarmos num café, num restaurante, numa sala de espera, num concerto ou até numa casa sem encontrarmos alguém a olhar para um ecrã. Até nos momentos supostamente mais íntimos, mais sociais ou mais vivos, parece existir sempre qualquer coisa a captar a nossa atenção para fora da realidade presente. E, o mais preocupante, é que isso quase já não é notado. Aprendemos rapidamente a conviver com esta realidade como se fosse completamente natural.

Habituámo-nos à ideia de que temos de estar permanentemente ligados, estimulados, distraídos ou ocupados. Como se ficar apenas quieto, esperar, não fazer nada ou estar simplesmente presente tivesse começado a tornar-se difícil de suportar. E é aqui, precisamente, que a questão começa. Porque o problema dos ecrãs já não é apenas o tempo que lhes dedicamos, mas a função psíquica que começaram a ocupar nas nossas vidas. Hoje, os ecrãs não servem apenas para comunicar, trabalhar ou distrair. Servem, muitas vezes, para não sentir.

Durante anos falou-se sobretudo do impacto dos ecrãs nas crianças pequenas: dificuldades de atenção, atrasos na linguagem, problemas na regulação emocional. Tudo isso continua a ser importante. Mas talvez o fenómeno se tenha tornado muito maior do que isso. A dependência dos ecrãs deixou de ser apenas uma preocupação infantil para se transformar numa espécie de anestesia emocional coletiva, transversal às crianças, aos adolescentes e aos adultos.

É comum vermos famílias inteiras fisicamente juntas e emocionalmente ausentes. Pais no telemóvel enquanto os filhos brincam, adolescentes fechados nos quartos em contacto permanente com o mundo, mas profundamente isolados, casais lado a lado no sofá sem realmente se encontrarem. Há cada vez menos espaço para o aborrecimento, para a espera, para o silêncio, para aquele tempo aparentemente vazio onde a mente descansa, imagina e pensa.

Mas é precisamente nesses espaços que a vida psíquica cresce.

Uma criança que espera pela comida num restaurante enquanto os pais conversam não está apenas “à espera”. Está a confrontar-se com limites, frustrações, desejos, irritação, excitação interna. Está lentamente a descobrir que nem tudo acontece imediatamente e que existem emoções difíceis que podem ser suportadas na presença do outro. Quando entregamos imediatamente um ecrã para evitar a birra ou a inquietação, aquilo que desaparece é apenas o sintoma visível. O desconforto continua lá, só deixou de poder ser pensado.

E aquilo que não é pensado acaba muitas vezes por ser agido de outras formas.

Talvez seja por isso que vemos hoje tantas dificuldades em tolerar o tédio, a frustração e a ausência de estímulo constante. Crianças incapazes de brincar sem entretenimento permanente. Adolescentes profundamente dependentes da validação externa. Adultos que já não conseguem estar verdadeiramente sozinhos consigo próprios sem pegar no telemóvel ao fim de poucos segundos.

Aliás, isto começa a aparecer de forma muito clara em consultório. É cada vez mais frequente ouvir pacientes dizerem que adormecem a fazer scroll no telemóvel, quase automaticamente, como se aquele fluxo contínuo de vídeos, imagens ou conteúdos funcionasse como uma espécie de companhia para adormecer. Mas muitas vezes não é companhia, é apenas uma anestesia. Uma forma de evitar o silêncio, os pensamentos, a solidão, o vazio ou simplesmente o contacto consigo próprios no final do dia.

Há algo de profundamente simbólico nisto: terminamos o dia ligados a milhares de estímulos, imagens e pessoas, mas profundamente desligados de nós próprios.

As redes sociais agravaram ainda mais este fenómeno porque exploram diretamente necessidades emocionais muito primitivas: reconhecimento, pertença, comparação, aprovação. Um adolescente não entra apenas no Instagram para ver vídeos. Entra num espaço onde o seu valor parece estar constantemente a ser medido. Quantos gostos teve. Quem respondeu. Quem ignorou. Quem parece mais bonito, mais feliz, mais desejado.

A adolescência sempre foi um período de enorme vulnerabilidade emocional e narcísica. Mas, nunca antes os adolescentes tiveram um espelho tão permanente e tão cruel diante de si.

E os adultos não estão propriamente mais protegidos. Muitos vivem hoje presos numa lógica compulsiva semelhante: verificar notificações dezenas de vezes por dia, consumir conteúdos sem parar, fotografar tudo antes de viver realmente o momento, sentir ansiedade perante qualquer pausa ou interrupção da estimulação.

O problema é que a mente humana precisa de pausas. Precisa de momentos não preenchidos. A criatividade nasce muitas vezes desses momentos. O brincar nasce do tédio. O pensamento nasce quando não estamos constantemente invadidos por estímulos externos.

Uma criança permanentemente estimulada dificilmente aprende a brincar sozinha. Um adolescente permanentemente distraído dificilmente consegue pensar sobre si próprio. E um adulto permanentemente ocupado em consumir conteúdos dificilmente consegue escutar aquilo que sente.

Claro que nenhum pai consegue fazer isto sempre. Nenhum adulto vive completamente livre desta dependência contemporânea. O problema não está em usar tecnologia, está sim na forma como ela começa progressivamente a ocupar o lugar de funções emocionais fundamentais como acalmar, distrair, preencher, anestesiar, evitar, lidar e até abraçar a solidão.

Talvez devêssemos perguntar-nos menos quanto tempo passamos diante dos ecrãs e mais porque se tornou tão difícil estar connosco próprios, com o outro ou simplesmente com os momentos vazios da vida.

A maior ironia disto tudo é que precisamente aquilo que mais nos desconecta uns dos outros nasce da necessidade desesperada de nos sentirmos permanentemente ligados. Só que, na procura incessante de ligação através dos ecrãs, acabamos muitas vezes por perder contacto com aquilo que verdadeiramente sustenta a vida emocional, que é a presença, o encontro e as relações reais.